[...] Os brancos não tinham razão, eles não eram os mais fortes quando desembarcaram na ilha. Seus canhões só atiravam uma vez em cada três tentativas, de nada serviam contra as flechas envenenadas. Seus motores estavam sempre em pane e deviam ser reparados a cada dia em um rio de graxa e de xingamentos. O Livro Santo de seus pastores permanecia mudo como uma tumba. As drogas de seus médicos agiam tão erraticamente que dificilmente se podia distinguir seus efeitos. Seus altos funcionários esperavam ser transferidos ou vencidos pela febre amarela. Seus geógrafos se enganavam sobre cada nome que eles atribuíam aos lugares familiares. Seus etnólogos se ridicularizavam, a cada hora do dia, por suas gafes e grosserias. Seus mercadores não sabiam o valor de coisa alguma e punham no mesmo saco a os totens, os porcos selvagens, as castanhas de caju, todas as tralhas... Não, eles não eram os mais fortes, esses brancos não iniciados, tremendo de febre e que, no dizer dos nativos, fediam fortemente a peixe ou carne estragada. Entretanto, graças a eles a ilha tornou-se arcaica, primitiva, pagã, mágica, pré-mercantil, pré-lógica, pré-tudo. E eles, os brancos, tornaram-se o mundo moderno. [Bruno Latour, Les Microbes - Guerre et Paix, Intemède V, 1984]
> leia mais em Pensamento Político Contemporâneo
11/08/2008
Viveiros de Castro e os ameríndios
E eis assim que os selvagens da pós-modernidade globalizada já não são mais antropomórficos ou etnocêntricos como os da modernidade imperialista, mas cosmocêntricos e ecomórficos. Ao invés de termos de provar (para nós mesmos, ocioso dizer) que eles são humanos porque se distinguem dos animais, sentimo-nos doravante forçados a reconhecer quão pouco humanos os modernos nos tornamos, a partir do momento fatídico em que opusemos a humanidade e a animalidade, a cultura e a natureza de um modo que eles jamais pensaram em fazer, eles que sempre as tomaram, ao contrário, como regiões de um vasto campo sociocósmico comum. Os índios das Américas, em especial, fizeram mais que passar venturosamente ao largo do Grande Divisor cartesiano que separou os humanos dos demais viventes. Sua ‘visão de mundo’, sua concepção social do cosmos e sua concepção cósmica da sociedade, anteciparia, consciente ou inconscientemente (problema delicado), as lições fundamentais da ecologia, que apenas agora começamos a compreender. [Eduardo Viveiros de Castro, Introdução ao contexto do perspectivismo]
> leia mais na rede Abaeté de antropologia simétrica
> leia mais na rede Abaeté de antropologia simétrica
Postado por
MR
Deleuze & Guattari e o cérebro
É o cérebro que pensa e não o homem, o homem sendo apenas uma cristalização cerebral. Pode-se falar do cérebro como Cézanne da paisagem: o homem ausente, mas inteiro no cérebro... A filosofia, a arte, a ciência não são os objetos mentais de um cérebro objetivado, mas os três aspectos sob os quais o cérebro se torna sujeito, Pensamento-cérebro, os três planos, as jangadas com as quais ele mergulha no caos e o enfrenta. [...] É o cérebro que diz Eu, mas Eu é um outro. [Gilles Deleuze e Félix Guattari, O que é a filosofia?, 1991]
Postado por
MR
Canguilhem, o cérebro e o pensamento
É certo que cada um de nós se envaidece por ser capaz de pensar, e muitos até gostariam de saber como é possível que pensem como de fato pensam. Ao que tudo indica, entretanto, essa questão já deixou, manifestamente, de ser puramente teórica, pois parece-nos que um número cada vez maior de poderes estão se interessando pela nossa faculdade de pensar. E se, portanto, procuramos saber como é que nós pensamos do modo como o fazemos, é para nos defender contra a incitação, sorrateira ou declarada, a pensar como querem que pensemos. [Georges Canguilhem, O cérebro e o pensamento, 1990]
> leia mais em matéria pensante
> leia mais em matéria pensante
Postado por
MR
Adorno e a formação cultural
O que hoje se manifesta como crise da formação cultural não é um simples objeto da pedagogia, que teria que se ocupar diretamente desse fato, mas também não pode se restringir a uma sociologia que apenas justaponha conhecimentos a respeito da formação. Os sintomas de colapso da formação cultural que se fazem observar por toda parte, mesmo no estrato das pessoas cultas, não se esgotam com as insuficiências do sistema e dos métodos da educação, sob a crítica de sucessivas gerações. Reformas pedagógicas isoladas, indispensáveis, não trazem contribuições substanciais. Poderiam até, em certas ocasiões, reforçar a crise, porque abrandam as necessárias exigências a serem feitas aos que devem ser educados e porque revelam uma inocente despreocupação frente ao poder que a realidade extrapedagógica exerce sobre eles. Igualmente, diante do ímpeto do que está acontecendo, permanecem insuficientes as reflexões e investigações isoladas sobre os fatores sociais que interferem positiva ou negativamente na formação cultural, as considerações sobre sua atualidade e sobre os inúmeros aspectos de suas relações com a sociedade, pois para elas a própria categoria formação já está definida a priori. [Theodor W. Adorno, Teoria da Semicultura]
> leia mais em Theodor Adorno
> leia mais em Theodor Adorno
Postado por
MR
Marshall D. Sahlins e a "natureza humana"
[...] a civilização ocidental tem sido largamente construída sobre uma idéia equivocada da "natureza humana". [...] É provavelmente verdade, todavia, que esta idéia equivocada da natureza humana ponha em perigo nossa existência. [...] Claramente, precisamos disso. Não é exagerado dizer que o mundo precisa da Antropologia para resistir à tempestade imperialista da ciência neoliberal. Pois quando digo "imperialista", aludo ao atual projeto norte-americano de democratização neoliberal em escala global, que envolve a mesma premissa da natureza humana auto-referida - da qual seus protagonistas políticos consideram-se divinamente dotados e sentem-se chamados a libertar. Eles presumem que, se a racionalidade prática inata comum a toda a humanidade for aliviada de idiossincrasias culturais locais através do emprego do tipo de força que qualquer um é capaz de entender, ela tornará os outros povos bons e felizes - exatamente como nós. [Marshall David Sahlins, conferência na UFMG em 23 de maio de 2007]
> leia a íntegra da conferência
> leia a íntegra da conferência
Postado por
MR
Leach e o problema do humano
Todo processo através do qual nós costumamos segmentar e classificar as coisas do mundo exterior e as reconhecemos como pertencentes a entidades específicas, deriva de uma persuasão introspectiva de que o "eu" pode ser distinto do "meu corpo", ilusão que se liga diretamente à crença universal de que "nós" (as pessoas como nós) podemos ser distintos "deles" (pessoas que seriam como nós na forma, mas não na sua essência íntima). As transformações que o conceito de "homem" sofreu ao longo da história do pensamento ocidental, refletem as inconsistências que uma tal fragmentação da experiência necessariamente implica. Mas, a partir desta inconsistência e fragmentação, o problema que parece persistir não é apenas "quem sou eu?"; e sim "quem somos nós?". Se parece evidente que somos "homens", em que sentido o somos?
[Edmund Leach, “Anthropos”. Enciclopédia Einaudi, volume 5 - Anthropos-Homem. Lisboa: INCM, 1985]
[Edmund Leach, “Anthropos”. Enciclopédia Einaudi, volume 5 - Anthropos-Homem. Lisboa: INCM, 1985]
Postado por
MR
Assinar:
Postagens (Atom)